Os erros de valuation raramente aparecem na planilha. Eles aparecem na mesa de negociação, quando o comprador encontra uma premissa sem lastro e converte a fragilidade em desconto de preço. Uma avaliação defensável parte de demonstrações consistentes, de projeções rastreáveis e de ajustes documentados item a item.
O contexto de mercado ajuda a explicar o rigor. De acordo com a Pesquisa Trimestral de M&A da KPMG, o Brasil encerrou o primeiro semestre de 2026 com 610 transações, que movimentaram R$ 195 bilhões. A quantidade de operações caiu 35% ante o mesmo período de 2025, mas o valor transacionado cresceu 22,3%, e mais de 85% desse total ficou concentrado em operações acima de R$ 1 bilhão. Há menos negócios em curso e mais exigência técnica em cada um deles.
Os tópicos abaixo percorrem os dez erros que mais custam preço, o efeito prático de cada um e o que organizar antes de levar a empresa ao mercado.
O que separa um valuation defensável de uma estimativa
Um valuation defensável resiste à revisão de um terceiro sem mudança material no resultado. Ele se apoia em uma base contábil confiável, em premissas que chegam a um documento e na coerência entre o plano de negócios e a série histórica já realizada.
A estimativa interna segue outro caminho: múltiplos soltos, projeção otimista e pouca evidência. Como referência de sócio, ela cumpre sua função, mas não atravessa uma due diligence, porque o comprador refaz a conta com os próprios critérios.
10 erros de valuation que derrubam a negociação
- Base contábil não revisada. Estoque, provisões e reconhecimento de receita fora do padrão distorcem o EBITDA e contaminam o modelo inteiro.
- Resultado sem normalização. Despesas de sócios, aluguéis fora de mercado e eventos não recorrentes precisam ser isolados, pois o comprador vai isolá-los de qualquer forma.
- Projeção descolada do histórico. Um crescimento muito acima da série realizada exige justificativa operacional; sem ela, a curva perde credibilidade na primeira pergunta.
- Múltiplo importado sem ajuste. Comparáveis de porte, região ou estrutura de capital diferentes produzem uma faixa de valor que não conversa com a realidade da empresa.
- Capital de giro fora da conta. A necessidade de capital de giro entra na formação do preço e, quando fica de fora, reaparece no ajuste de fechamento.
- Dívida líquida mal apurada. Empréstimos de sócios, consórcios, antecipação de recebíveis e arrendamentos compõem o endividamento real e precisam estar mapeados.
- Contingências não provisionadas. Passivos fiscais, trabalhistas e cíveis sem estimativa viram desconto direto ou retenção de parte do preço.
- Taxa de desconto genérica. Uma taxa copiada de referência internacional não reflete o risco da operação nem o custo de capital praticado pela empresa.
- Dependência não declarada. Concentração em poucos clientes, em um contrato relevante ou na figura do sócio reduz valor e precisa estar precificada desde o início.
- Ausência de análise de sensibilidade. Sem cenários, o vendedor perde a capacidade de defender a faixa quando a premissa central é questionada.
Onde esses erros viram desconto de preço
O desconto não nasce de uma discordância conceitual sobre método. Ele nasce quando o comprador recalcula o EBITDA normalizado e encontra uma diferença que o vendedor não consegue explicar com um documento.
A partir daí, a conversa troca de eixo. O vendedor passa a justificar número em vez de negociar condição, e cada resposta imprecisa amplia a percepção de risco. Nesse ponto, a qualidade da informação passa a valer tanto quanto a qualidade do ativo.
Como evitar os erros de valuation antes de abrir o processo
- Revisão contábil prévia, com exercícios fechados em critério auditável antes da contratação da avaliação.
- Memória de normalização, registrando cada ajuste com valor, período e documento de origem.
- Plano de negócios amarrado ao realizado, explicando a projeção por volume, preço e capacidade instalada, nunca por percentual genérico.
- Mapa de contingências com estimativa, classificando o risco por probabilidade e valor, com parecer técnico quando a exposição for relevante.
- Cenários testados antecipadamente, simulando receita, margem e taxa de desconto para conhecer a faixa antes que o comprador a descubra.
Grupo Value: valuation com lastro técnico
O valuation conduzido pelo Grupo Value nasce da revisão dos números, não da planilha pronta. A atuação em M&A Boutique e Corporate Finance reúne quatro frentes objetivas:
- Análise das demonstrações financeiras com identificação de ajustes e reclassificações necessárias.
- Modelagem de fluxo de caixa descontado com premissas rastreáveis até a operação real.
- Avaliação por múltiplos de mercado com seleção criteriosa de comparáveis.
- Análise de sensibilidade e cenários para delimitar a faixa de valor antes da negociação.
Para o CFO, o efeito é direto: em vez de reagir ao recálculo do comprador, a empresa chega à mesa com a conta já defendida.
Se a sua empresa cogita uma transação nos próximos meses, vale avaliar a consistência do valuation antes que o mercado faça isso por você.


